Minha alma escorre como em um rio de palavras. Sou uma metáfora que ressoa como um gemido de uma Fênix em pedaços. Há uma chama que consome minha imagem, meu reflexo e meu aroma. Estou perdido, sem memória possivel, desaparecido e pulsando. Não há mais sóis nem templos de ilusão. Existo como um EU, que se reconstroi entre cacos e silêncio.
Domingo, Fevereiro 29, 2004
PSEUDO POESIA
Olhando pra lá, ela traga com o olhar o desejo
Na selva de pedra de além mar, hospedou-se seu coração;
Sua vontade, seus pensamentos
E eu, do lado de cá, tão perto do que quero,
tão distante de alcançar, perco a paz:
A agonia dela se soma à minha
e não adianta cantar, jogar ou nadar:
Aqui não é mais o lugar
Porque quando não se tem o que se quer
Nada mais importa.
(Emmanuel Cláudio Nunes | 27/02/2004)
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 9:02 PM Comments:
Quinta-feira, Fevereiro 26, 2004
MONÓLOGO MONÓTONO
"Espaços vazios, Espaços vazios,
para quando desaparecidas as palavras.
Quando de modo nenhum em diante.
Escoar mesmo que escoe..."
S.Beckett
Arrasto-me. Agachado nesta inexistência verdadeira. Deixo meus dedos no caminho de silêncio que construo. Às vezes, grito tanto, que fico rouco, ou mudo, por um quase sempre. Uma melodia triste cantada sob uma chuva artificial.
Canto o mar,
ou canto o firmamento.
Não os distingo,
pois são abismos
com estrelas distantes.
Canto uma tristeza,
que é silêncio afogado
nestas lágrimas que escorrem
sem rastros verdadeiros.
Um dia criei uma borboleta. Invisível de tão negra. Ela é o espelho opaco de meus sonhos apagados. Vive sem distinguir a noite do dia, pois está eternamente escondida, camuflada, entre as ramas do jasmineiro. Alimenta-se não de néctar, mas de outras borboletas. Desprovida de cores, devora-as na ilusão de tingir sua penumbra com estes pigmentos abstratos. Mas apenas cresce. Cresce tanto, que um dia irá me devorar. Desaparecerá, entretanto, neste instante, pois a criei minha imagem e semelhança. Como um Deus. Não gosto de borboletas, pois são decorativas. Só servem espetadas por um alfinete, penduradas num quadro na sala. Qualquer sala, não importa. Estáticas e embalsamadas. Silenciosas em seu silêncio imóvel. Eis porque eu criei uma borboleta negra e solitária. Devorando como o tempo, que corrói a alma e os sonhos feitos de neblina e aquarela. Amo-a, pois é a única imagem real de minha única e ressecada lágrima. Unicamente tudo. Uma mariposa de asas largas e dentes fortes e articulados. Antes de se tornar, devorou a si mesma, autofágica, suas próprias entranhas, tecendo seu casulo invisível. Arrasto minhas correntes e deixo meus pés no caminho de silencio que construo. Deixo a linha liquefeita de meu sangue transparente, que desliza da ponta de meu indicador, tocando, torto, a trilha de asfalto e vidro. E uma chuva artificial, como toda a minha idéia, a minha existência. Diluindo-me e fundindo-me às entranhas intestinais que vão desaparecendo. Uma voz metálica e monótona a repetir: "...e eles eram um só!". E tantas almas, e tantas preces, e tanto sono, sonolência e frio. Descubro minhas infinitas pernas e patas até o pescoço, carregando o fardo da memória nula. Eu e o meu nada, que causa profunda melancolia, mas é apenas um enredo sem fim ou recomeço. Amanheço, sem saber se fui, um dia, noite. Caindo sem asas. Afogado e escorrendo. Tinta aquarelada de ilusão.
(L. F. Calaça | 24/02/2004)
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 12:56 AM Comments:
Terça-feira, Fevereiro 24, 2004
WHAT IS THE WORD
(Samuel Beckett)
Folly
Folly for to
For to
What is the word
Folly from this
All this
Folly from all this
Given
Folly given all this
Seeing
Folly seeing all this
This
What is the word
This this
This this here
All this this here
Folly given all this
Seeing
Folly seeing all this this here
For to
What is the word
See
Glimpse
Seem to glimpse
Need to seem to glimpse
Folly for to need to seem to glimpse
What
What is the word
And where
Folly for to need to seem to glimpse
What where
Where
What is the word
There
Over there
Away there
Away over there
Afar
Afar away over there
Afaint
Afaint afar away over there what
What
What is the word
Seeing all this
All this this
All this this here
Folly for to see what
Glimpse
Seem to glimpse
Need to seem to glimpse
Afaint afar away over there what
Folly for to need to seem to glimpse
Afaint afar away over there what
What
What is the word
What is the word
QUAL É A PALAVRA
Loucura
Loucura por
Por
Qual é a palavra
Loucura por isto
Tudo isto
Loucura por tudo isto
Dado
Loucura dada a tudo isto
Visto como
Loucura vista como tudo isto
Isto
Qual é a palavra
Isto isto
Isto isto aqui
Tudo isto isto aqui
Loucura dada a tudo isto
Visto como
Loucura vista como tudo isto isto aqui
Por
Qual é a palavra
Ver
Relance
Parecer relancear
Precisar parecer relancear
Loucura por precisar parecer relancear
Qual
Qual é a palavra
E onde
Loucura por precisar parecer relancear
Qual onde
Onde
Qual é a palavra
Aí
Além daí
Fora daí
Fora além daí
Ao longe
Ao longe fora além daí
Vago
Vago ao longe fora além daí qual
Qual
Qual é a palavra
Visto como tudo isto
Tudo isto isto
Tudo isto isto aqui
Loucura por ver qual
Relance
Parecer relancear
Precisar parecer relancear
Vago ao longe fora além daí qual
Loucura por precisar parecer relancear
Vago ao longe fora além daí qual
Qual
Qual é a palavra
Qual é a palavra
(tradução: Luiz Fernando Calaça)
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 2:46 AM Comments:
Segunda-feira, Fevereiro 23, 2004
Untitled - the Seven Arts, Salvador Dalí (1944)
A MOSCA
entre mim e a cena
a vidraça
nua a não ser ela
com o ventre por terra
cintada pelas suas tripas negras
antenas transtornadas asas unidas
patas aduncas boca sugando o ar
acutilando o azul esmagando-se contra o invisível
sob o meu polegar impotente ela põe de pantanas
o mar inteiro e o céu sereno
(Samuel Beckett)
DORTMUNDER
No mágico homérico crepúsculo
para além do pináculo vermelho do santuário
Eu nulo era velho navio real
apressamo-nos a ir à lâmpada violeta
ao som esganiçado da música K'in da proxeneta.
Ela está de pé perante mim na barraca iluminada.
sustentando os estilhaços de jade
signaculum escalavrado da quietude da pureza
os olhos olhos pretos até que o oriente plagal
resolva a longa frase da noite.
Depois, como o rolo, enrolado
e a glória da sua dissolução ampliada
em mim, Habacuque, excremento de todos os pecadores.
Schopenhauer morreu, a proxeneta
guarda o alaúde.
(Samuel Beckett)
Samuel Beckett
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 2:11 AM Comments:
Domingo, Fevereiro 22, 2004
O PIERRÔ NEGRO
"Que barulho é esse na escada? / É a virgem com um trombone,
a criança com um tambor, / o bispo com uma campainha
e alguém abafando o rumor / que salta de meu coração."
POEMA PATÉTICO, Carlos Drummond de Andrade
Eis um pierrô com vestes em branco e preto, sentado na calçada, enquanto passa o cortejo de Dionísio. Traz nas mãos uma flor de papel, e na máscara brilhante uma lágrima que, negra, quase não se percebe na fantasia. Eis um pierrô que em meio a trompetes e tambores italianos, meio à gargalhada e aos fogos vienenses, está submerso num ininterrupto silêncio e lamento. Ao seu redor, homens vestidos com trajes de cortesã, moças com suas máscaras douradas e chapeis com enormes flores coloridas, um cão com chifres e uma velha mendiga ofertando maçãs do amor. Onde estará, pensa o pierrô negro, sua amada colombina?! Talvez seja cedo ainda para sua presença. Talvez seja tarde demais para sua espera. Mas eis que o bumbo e as cornetas cantam a festa dos homens, dançam a entorpecencia do vinho, louvam o amor e a vida num deboche de palhaços endemoniados. No meio do carnaval de cores e música, um grande carro alegórico, um desfile de homens e mulheres, damas e cavalheiros, com roupas púrpuras e de um rubro incandescente, a segurar um andor onde jazia uma mortalha cor de Lua, com gotas de estrelas negras e uma máscara lívida e lábios sangrentos de rosa. Vê, o pierrô, sua amada. A festa de Baco vira procissão de Ades ao reino da finitude. Vê, o pierrô, sua colombina morta. Ele Orfeu sem Eurídice. Não traz seu violino para tocar uma melodia enlouquecida, mas apenas uma falsa flor branca, a depositar sobre os lábios, também falsos, de sua amada. E no silêncio, e no delírio, cálices de vinho tilintam, o líquido da vida se derrama em louvor ao fim e ao gozo. Corpos se aglutinam numa ânsia derradeira sob o anonimato das faces de cerâmica, personas de escárnio. Perdido o pierrô, perdido o ideal e o sentir. E os deuses da noite em fogos se entorpecem em aroma etílico da lágrima que se dissipa. E o pierrô queima, virando estátua de cinza.
(L. F. Calaça)
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 9:08 AM Comments:
Sábado, Fevereiro 21, 2004
POEMA DE AMOR #5
O amor se estrepou
Não pagou as contas
Água luz e telefone
Morto asfixiado
(Gás de cozinha)
Virou notícia de jornal
Virou espetáculo de fim de tarde
No meio da rua
Corpo estrebuchando
Atropelado pelo caminhão do lixo
O amor se estrepou
Dobrou a esquina
Deu de cara com a polícia
Fez um gesto obsceno
E foi pra cadeia
Cheio de hematomas
Todo esmolambado pede esmolas
Frutas da feirinha
Lambidas de vira-latas
Moedas atiradas
O amor se estrepou
Quase surdo-mudo
Não comunica
Entra em cena como mímico
Finge tão completamente
Chega a fingir que é amor
E é fantasia de carnaval
Dança bebe e fode
Goza ri e pena
Quarta-feira vira cinzas
(Antonio Laranjeira | 02/2004)
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 4:23 PM Comments:
Sexta-feira, Fevereiro 20, 2004
IMAGENS SOB ACÚSTICO
A vida é o interminável processo que leva ao silêncio. Nasce o homem com seu grito de estranhamento, sabendo, inconscientemente, que o seu verdadeiro destino é a estagnação. A cada instante, mais grãos de areia são depositados sobre nosso corpo. Uma grande praia, areial além do horizonte. Cobre nossos pés, solidificando-os. Nossa cintura é soterrada passo a passo. Assim, não se percebe a dor, pois ela não existe realmente. O que há é uma tensão sobre todos os lados, para dentro, sempre. O peito passa a ter uma respiração forçada. Abdômen e tórax contraídos, limitando a distensão do diafragma. Depois, a garganta, a fala, a voz, o canto emudecido. Ausência de fome, de gosto. Apenas o tato de uma língua arroxeando-se. A língua roçando o céu da boca. Não há céu, mas apenas uma caverna. As narinas embargadas num suspiro alérgico. O pó a penetrar os pulmões claustrofóbicos. E os olhos... arregalados, fitando aquele espaço indistinto, meio em brumas, penumbra e luz incandescente. Uma cegueira piscando. Sucessivas quadras de xadrez. O coração arrítmico. Bate... pára... bate... pára... tudo bate-pára-bate-pára... Tum... tum... tum... tum... bate-bate-bate-bate-bate. E o crânio se batendo, fluxo de idéias, imagens virtuais, música ao luar. Canções, beijos, suores. Medo, silêncio, tristeza. Gargalhadas, risadas, sorriso amarelo. Mar azul interminável, um Sol a bronzear a pele que se descama e arde em cobre. A memória. Eu, você, casa branca, portão cinza e gato persa. Moedas caindo pela escada. Olhos cheios de lágrimas secas, inundadas, borbulhando. Balões voando, arco-íris, no ar. Caixas vazias e cheias de jornais e fotografias. Um relógio de metal dourado. E um estalo de madeira. Cupins e chuva forte. Árvores brincando de balanço. Gritinhos de criança anã e curiosa. Flores brancas no jardim. Violetas na janela. Aroma de jasmins ou cravos. Doce com raspas de canela. Uma ficção de bate-pára-bate-pára. Coração-mente-alma. Anjo alado. Imagem de mulher a fazer carinho nos cabelos. Tudo tão próximo do sentido da existência. A vida, a dor, o silêncio. Não preciso de alimento, pois me consumo em lembranças fermentadas. Um pombo correio. Uma criança anã e curiosa. O pensamento. Sinapses neurais. Um copo de cristal pela metade. Circulo branco a rolar pela língua, faringe, esôfago, estômago dissolvendo dissolvido. Um olhar fixo no fragmento de vidro cinza metálico. Um, dois, três, vinte olhos ciclópicos. Um suspiro reunido num soluço gago. Asas abertas junto ao mais alto despenhadeiro. Apenas grãos de areia. Fios de cabelos esverdeados a nascer como grama. Um jardim, um campo limpo ao pé do mar e longe dos olhos. Praia, mãos dadas e pés descalços. Nada vivido novamente. Nunca, realmente. Apenas ilusão imatura. Uma mão cheia de veias e artérias folheando o livro sem letras, palavras, frases, destinos. Apenas imagens. Apenas saudades de um desejo. O relógio de metal a dar as horas. Ultimo grão de areia sobre um eu feito fóssil arqueozóico. Um amuleto pendurado sobre dois ramos de angélicas. Todas as sensações, nenhum sentido. Uma pedra, signos do zodíaco. Versos íntimos dedicados ao mais materialista dos poetas. Todo o mundo desmanchado. Aves flutuando. Fantasmas. Bate... tum... tum... tum... tum..., pára! Ponto na retina, nervo óptico. Olhos bem fechados. Não há palavras, nem som. Parado um bloco de cimento e massa corrida. Esculturário. Pára. Para... Tum! Dentro.
(L. F. Calaça | 16/02/2004)
SEM OLHOS
Retorno ao meu princípio:
fecundante e fecundado.
A forma, um círculo imerso
num segredo de vida sem braços.
Existo como matéria
ocupando meu fatídico espaço
no meio deste nada cósmico.
Seco, esvazio... Viro cela.
Visto tanta roupa e me sufoco.
Nu, tenho minha derme sulfúrica.
Atravesso meu peito e, como mágico,
desapareço adormecido dos sinais.
Matéria fluida, liquefeita,
deslizo e escorro nestas lágrimas.
Minha única e humana expressão
que me torna eterno e real.
Lágrimas que escorrem
e me diluem na esterilidade
do deserto Mar de Aral.
(L. F. Calaça | 19/02/2004)
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 5:13 AM Comments:
Terça-feira, Fevereiro 17, 2004
ONDE?
Esta boca vermelha falara, assim, convulsivamente, engasgada, desconexa e desenfreada, talvez por toda a eternidade. Se algo foi, um dia, um instante, um milésimo de segundo, eterno, terá esta boca o tempo para si e sua orgia de palavras. Tão casta e obscena como as nádegas mordidas de um recém-nascido. Uma boca tão antiga, que, desde antes do principio, já ouvia-se seus gritos. Não é a boca de Deus, pois este é quase sempre silente, só nos fala antes de dilúvios. Em outras catástrofes, humanamente derradeiras, manda-nos, ou manda-lhes, anjos de asas vermelhas. Digo isso, pois não sei se sou humano, ou alguma coisa que me surgiu. Assim, também, a boca vermelha. Há cabelos espalhados por todos os cantos. Numa crise de loucura e pranto, todos puxados até não sobrar nenhum fio sequer. O telefone toca longe, é um trote de palavras chulas. Todos os nomes numa torrente sincrônica, que só se dilui do choque, após o fim da charada. Mas não há, verdadeiramente, fim. Há este instante mudo de estopim, um soar agonizante de uma corda de bandolim histérico. Um bandolim, não um violino. Talvez todos sejamos tão velhos e senis, que tenhamos esquecido a origem do Universo. Um grande coito entre os elementos, todos copulando entre si, emprenhando-se. A boca a rir, gemer e gozar. E uma escultura antropológica sobre uma agulha de dois metros de altura. Uma não, milhares! Cravejadas em todo o corpo metafísico. Não há dor maior que a de parir. A minha sorte é que, como ser andrógeno, a Dor fica confusa. E as chibatadas?! Complexo de ciladas armadas e com gatilho pronto para ser acionado. É tudo genética. Não há razão filosófica. Há esta boca vermelha e desdentada rindo, gritando, cantando canções de soluço, inveteravelmente nosso misterioso destino. Meu não! Pois não existo realmente. Nem sei quem mente, ou é real. Caso tudo fique parado, há uma onda, uma nuvem, de átomos ligando tudo a tudo. E mesmo assim, ninguém se toca, distantes milhares de quilômetros. Anos-luz! E há luz entre dois pés?! Falamos de bocas, não de pés. Mas gosto de chupar o dedão do pé. Aff! Tarado, maníaco, pervertido! Mas quem disse que chupar dedão do pé é crime?! O dedão do pé é coisa do demônio, símbolo fálico, coisa do Tinhoso. Ai! O que foi?! Comi meus dedos! O plasma verde escorrendo. E a boca?! Ela continua aqui, neste mesmo onde, em lugar algum, falando, gritando, gemendo, gozando, ejaculando. Nessa ordem quebro meu sentido e saio a guilhotinar as cabeças dos bacharéis. Aquele silêncio... é tudo e absolutamente a dúvida de existência de algo. Um guarda-chuva pendurado na escada. Um palco todo escuro e gotejante. Eu quero entender o meu mistério. Todos o querem. Todos temem. Sou tão dramático como uma tragédia de Sófocles. Pinto-me sobre uma tela de vidro. Espremido... Transformado em suco. E uma gosma escorrendo desta boca mongolóide. Sofrendo de aneurisma. Tiro minha máscara de gesso. Desfaleço. Entorpecidamente arregalado. Palitos de fósforo a queimar as pontas do nada. O caos. Um compasso brejeiro. Um salto mortal. Para além... Para o dado de mil faces, rolando pelo chão em brasa. Ainda haverá o dia do improviso. Os dentes se arrastam sobre o teto.
(L. F. Calaça | 16/02/2004)
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 12:09 AM Comments:
Segunda-feira, Fevereiro 16, 2004
Cena de Improviso em Ohio.
Hoje fui assistir a peça
COMÉDIA DO FIM - Quatro Peças e uma Catástrofe, do escritor e dramaturgo
Samuel Beckett. Fiquei maravilhado com a tensão criada sobre o homem pós-moderno, sua imersão no vazio e no caos, a solidão, o eco e a degradação. Na verdade trata-se da interpretação de 5 micro-peças:
EU NÃO, IMPROVISO EM OHIO, FRAGMENTOS DE TEATRO I, COMÉDIA e
CATÁSTROFE. Textos marcados por uma forte incomunicabilidade e ausência de sentido, de direção.
O elenco, a produção, o som, tudo é fantástico. Este dia 15 foi a ultima apresentação no mês de fevereiro, mas ela deverá voltar em março. Quem puder ir, não perca. É desassossegante...
Ah, se puderem, leiam a critica escrita pela professora Cássia Lopes, da UFBA, que saiu no suplemento CULTURAL, do dia 14 deste mês, no jornal A TARDE.
Samuel Beckett
TEATRO: Comédia do Fim - Quatro Peças e uma Catástrofe - Núcleo de Teatro do TCA
"Comédia do Fim - Quatro Peças e uma Catástrofe" é o título da nona montagem do Núcleo de Teatro do TCA, que reúne textos do dramaturgo irlandês Samuel Beckett, sob a direção de Luiz Marfuz.
O elenco é formado pelos atores
André Tavares, Frieda Gutman, Ipojucan Dias, Luiz Pepeu, Marcos Machado, Urias Lima, Zeca de Abreu. Atriz convidada,
Hebe Alves.
Local: Sala do Coro do TCA
Horário: 20h
Ingresso: R$ 14,00 (inteira) e R$ 7,00 (meia)
Duração: 1 hora e 15 minutos aproximadamente
Dias: 01, 06, 07, 08, 13, 14 e 15 de fevereiro (Sexta a Domingo), e previsão para temporada em março.
Liberado para maiores de 14 anos
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 1:50 AM Comments:
RUÍNAS ALADAS
Um dia pensei em ir à Grécia. Todos a acham bela e inspiradora. Vejo apenas ruínas de um tempo passado, colunas espatifadas, escadas sem degraus, esculturas sem cabeça ou braços. Em todo este degredo, há um espelho, que reflete este corpo que se escreve. Há uma tensão entre o fio de meu cabelo e as pontas de meus dedos da mão esquerda. Movimentos involuntários, quase imperceptíveis. Tremores, não medos. Se bem que... guardo a sensação de que algo ganha vida, como uma mariposa que se desprende do estático casulo de seda. Já usei esta imagem, mas antes as portas estavam aferrolhadas. Agora vislumbra os céus e a fuga insana. Talvez a fuga num sono eterno de ininterrupta inexistência. Apenas o fôlego constante e paralítico. Quero ver os lustres desabando e os óculos quebrados em mil partes. Descobri o motivo de ninguém me ouvir. Sou prolixo demais, pois sou de giz. Nunca dancei tango em Paris, nem atirei facas ao precipício. Danço sobre as águas desmaiadas de um lago, congelado pelo nada. Um cisne negro e quatro olhos de silêncio. Lá, bem longe, na ilha de Lesbos, meninas dançavam cantigas de guirlanda. Hoje, umas requebram suas ancas nas caras pálidas dos sem memória. E em Esparta, espadas cortam as gargantas. Faltou-me água no caneco de alumínio. Sou quase índio, quase nobre e burguês. Sou desterrado, sem peito e faces rotas. Alguém disse que havia estrada de tijolos verde-mar. Esse lirismo é tão descabido que minhas gotas caem no chão. Estou apaixonado por uma caricatura da TV. É quase uma colombina italiana. Triste os olhos atrás da roxa maquilagem. Vibrante em suas roupas coloridas e..., completamente idiota. Mas ela é tão graciosa em sua mascara de menina devassa. Quase uma ninfa que se fundiu a Hermafrodita. Cada vez estou mais
in. Em tudo impossível de vivência. Quero um canário cantando sobre um galho. Ou um frango tossindo e com enxaqueca. Se eu fosse ucraniano, teria uma sensibilidade derradeira e depressiva. Como não sou, é tudo uma farsa em baile de finados. Todos nascem com dia, sexo e hora. Quero trepar sob as águas do Pacífico. Sei que não sou eu, mas me afogo. Alguém encontrará meu corpo desfalecido, boiando sem asas e sem olhos. Aquela escultura saiu correndo e deu um grito. Alguém goteja suas lágrimas numa panela de moqueca. Saio dançando um samba louco e sem refrão. Roubaram todas as vogais. Lixo minhas garras, para então morrer de fome. Sou tão feio como o corcunda de Notre-Dame. Mas todos querem um pedaço de minhas bochechas. Ficarei rico, prostituindo minhas bochechas. Um Real a apertadela. Minha coluna é feita de mármore partido. A medula sorri sem dentes de Medusa. Esculturas adormecidas sobre redes. Todas as cidades de sal derretidas com o dilúvio. Só restou uma torre alta de minhas loucuras. Todos são livres para bolinarem as beatas. O vinho foi derramado pelas tetas da vaca profana. Não me perguntem nada, pois esqueci os óculos de grau. Amanha é dia de Stonehenge. A cãibra devora minhas asas de calcário. A Lua cheia vigia meu tendão de prata oxidada.
(L. F. Calaça | 14/02/2004)
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 12:39 AM Comments: